Rosa de Jericó

Rosa de Jerico

 

A Rosa de Jericó, também conhecida como flor da ressurreição, é uma planta do deserto que cresce no Oriente médio e na América Central. Em um ambiente favorável, estas plantas se reproduzem, crescendo de forma exuberante e muito rapidamente. Mas nos períodos em que o ar e a terra tornam-se secos, a flor da ressurreição se encolhe toda formando uma bola e guardando o mínimo de umidade em seu interior. Suas raízes se soltam do “corpo” e desta forma podem sobreviver por longos períodos sem uma gota d´água sequer. Novamente em contato com a umidade, a bola abre suas folhas e rapidamente “retorna à vida”. O mesmo acontece no Brasil com uma planta chamada ipê. Quanto mais frio e seco for o inverno, mais ela percebe a ameaça de morrer e, nesse receio, explode em exuberância, a fim de gerar frutos que garantirão a vida.

Em Santa Maria de Belém do Grão Pará, assim como em outros estados brasileiros, algo similar a rosa de jericó e ao ipê acontece com os artistas. Sobreviventes, grupos e coletivos se veem em situação única na história da vida cultural da cidade e do país e, por este motivo, parecem impulsionados a cruzar um limiar. Diante deste quadro, disparam novas frentes de atuação com abertura de espaços que firmam uma produção poética com potência política ao promover, de modo autônomo, práticas de intervenção, formação e experimentação artística que se constituem como micropolíticas para cidade.

A rosa de jericó, figurada como a imagem força desta rede, é uma metáfora dos artistas no movimento de gerir espaços, num contexto poético-político, por condutas que comportam uma bios similar a dessa planta do deserto. Nesse sentido, são capazes de manifestar potência de vida nutrida tanto pela abundância do recurso natural de que necessitam, como também, diante de sua escassez, ao simular sua própria morte como condição necessária para sua sobrevivência. É o que acontece quando os espaços artísticos são obrigados a fechar suas portas. E como se comportam os grupos e coletivos que eles abrigavam? Resistem! Continuam caminhando no deserto de políticas culturais em busca dos recursos para manutenção e continuidade de suas práticas artísticas. E dificilmente morrem. Encontram uma maneira cognitiva de dialogar com seu meio e saciar sua sede com o mínimo de água. Uma vez abastecidos, explodem em vida. Um tipo de resistência que também manifesta na fragilidade a sua potência. No entanto, nem só de água ou aridez necessita essa flor da ressurreição, mas de ambos os ecossistemas.

Ao tentar resistir às intempéries do império capitalista, com suas raríssimas ou predatórias políticas de fomento, o artista brasileiro também peregrina em busca de um lugar que ofereça as condições mínimas para a germinação e cultivo independente de um espaço que lhe permita uma liberdade criativa em diálogo com a cidade.

Com o propósito de ser uma ação a fornecer material de pesquisa para se pensar políticas culturais, este sítio mapeia as estratégias de resistências e sobrevivências desses espaços artísticos de Belém, e sua capacidade de se desterritorializar e reterritorilizar, como a rosa de jericó, por dispositivos poéticos e de gestões autônomas singulares, cujo fluxo de interação e troca entre eles será tramado na perspectiva de uma rede.